Como as ondas gravitacionais podem revolucionar a astronomia
Na esteira do anúncio histórico da semana passada da descoberta das ondas gravitacionais
pelo Laser Interferometer Gravitational-Wave Observatory (LIGO), o
físico britânico e teórico de buracos negros Stephen Hawking foi rápido
em parabenizar a colaboração liderada pelos Estados Unidos,
compartilhando seu entusiasmo pela histórica notícia para a astronomia.
“Estes resultados confirmam várias previsões muito importantes da
teoria da relatividade geral de Einstein”, disse Hawking em uma
entrevista à BBC. “Ela confirma a existência de ondas gravitacionais
diretamente”.
Como é evidente, a detecção direta destas ondulações no espaço-tempo
não só confirma a famosa teoria da relatividade geral de Einstein, mas
também abre nossos olhos para um universo anteriormente “obscuro”. A
astronomia usa o espectro electromagnético (como a luz visível, raios-X,
infravermelho) para estudar o universo, mas os objetos que não irradiam
no espectro eletromagnético passam despercebidos. Agora que sabemos
como detectar ondas gravitacionais, pode haver uma mudança de paradigma
na forma como detectar e estudar alguns dos fenômenos cósmicos mais
energéticos.
“As ondas gravitacionais fornecem uma maneira completamente nova de
olhar o universo”, disse Hawking. “A capacidade de detectá-las tem o
potencial de revolucionar a astronomia”.
Evidência observacional
Usando as estações gêmeas de observação do LIGO, localizadas na
Louisiana e em Washington, nos EUA, os físicos não só detectaram ondas
gravitacionais; as ondas gravitacionais que foram detectadas tinham um
sinal muito claro que estava estreitamente alinhado a modelos teóricos
de uma fusão entre buracos negros a cerca de 1,3 bilhões de anos-luz de
distância. A partir da análise inicial do sinal de fusão de buracos
negros, Hawking percebeu que o sistema parece alinhar-se com as teorias
que ele desenvolveu na década de 1970.
“Esta descoberta é a primeira detecção de um sistema binário de
buracos negros e a primeira observação de buracos negros em uma fusão”,
disse ele. “As propriedades observadas deste sistema são consistentes
com as previsões sobre os buracos negros que eu fiz em 1970 aqui em
Cambridge”, apontou.
Hawking talvez seja mais conhecido por seu trabalho que une teoria
quântica com a física dos buracos negros, percebendo que os buracos
negros evaporam ao longo do tempo, levando à sua participação no
fascinante “Paradoxo Firewall”, que continua a ressoar em toda a
comunidade física teórica. Mas aqui ele se refere ao seu teorema da área
do buraco negro, que constitui a base da “segunda lei” da mecânica do
buraco negro. Esta lei estabelece que a entropia, ou o nível de
desorganização da informação, não pode diminuir dentro de um sistema de
buraco negro ao longo do tempo. Uma consequência disto é que quando dois
buracos negros entram em fusão, como o evento de 14 de setembro, a área
dos horizontes de eventos combinados “é maior do que a soma das áreas
dos buracos negros iniciais”. Além disso, Hawking ressalta que esse
sinal de onda gravitacional parece estar de acordo com as previsões com
base no “teorema da calvície” dos buracos negros, o que significa,
basicamente, que um buraco negro pode ser simplesmente descrito por seu
momento angular, massa e carga.
Os detalhes por trás de como esse primeiro sinal de ondas
gravitacionais de uma fusão entre buracos negros concorda com a teoria
são complexos, mas é interessante saber que esta primeira detecção já
permitiu que os físicos confirmem teorias com décadas de idade e que,
até agora, tinham pouca ou nenhuma evidência observacional.
Enigma do crescimento
“Esta descoberta apresenta ainda um enigma para os astrofísicos”,
disse Hawking. “A massa de cada um dos buracos negros é maior do que o
esperado para aqueles formados pelo colapso gravitacional de uma estrela
– então como é que ambos os buracos negros se tornaram tão grandes?”.
Esta questão toca em um dos maiores mistérios da astronomia que
cercam a evolução dos buracos negros. Atualmente, os astrônomos estão
tendo dificuldades em compreender como os buracos negros crescem e ficam
tão grandes. Em um extremo da escala, há buracos negros com “massa
estelar” que se formam imediatamente após uma estrela massiva se tornar
uma supernova, e também temos uma abundância de evidências para a
existência dos buracos negros gigantes e supermassivos que vivem nos
centros da maioria das galáxias. Há uma desconexão, no entanto.
Se os buracos negros crescem através da fusão e do consumo de matéria
estelar, deveria haver evidência de buracos negros de todos os
tamanhos. Mas buracos negros de massa “intermediária” e buracos negros
com algumas dezenas de massas solares são surpreendentemente raros, o
que coloca algumas teorias da evolução dos buracos negros em dúvida.
Com a detecção das ondas gravitacionais veio a constatação de que uma
fusão binária entre buracos negros as causou. Dois buracos negros,
pesando 29 e 36 massas solares, colidiram e se fundiram em um só,
gerando um sinal de onda gravitacional muito claro. Mas, como apontado
por Hawking, como buracos negros desta massa específica vieram a existir
poderia fornecer algumas pistas de como os buracos negros crescem. [Space.com]
Fonte: hypescience.com
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